Os brinquedos populares do Alentejo levam-nos aos montados onde os rapazes guardavam gado, à rua do monte ou ao interior da casa onde as raparigas brincavam com as bonecas e ajudavam as mães na lida. Construídos com materiais existentes no meio natural (madeira, cortiça, cana, lã, barba de milho, bugalhos, bolotas, palha) e doméstico (trapos, botões, arames, latas), estes brinquedos mantêm uma profunda ligação às matérias disponíveis no meio, tradicionalmente aproveitadas em contextos de pobreza.
A dinâmica e interesse suscitados pelo trabalho de recolha de uma colecção de brinquedos populares pela Oficina da Criança de Montemor-o-Novo na década de 80, o seu estudo antropológico (parte enquadrado por uma bolsa atribuída pelo Instituto Camões em 1998) , a realização de 2 exposições em (....ver folheto) e o potencial económico da produção e comercialização de brinquedos populares com novas valências didácticas e artesanais, levaram-nos a acreditar que era possível criar dinâmicas de desenvolvimento local a partir destes objectos, tornando-os elementos identificadores do património cultural da região, objectos de "marca" de um território. Tratava-se de estimular práticas presentes a partir de memórias e usos passados.
Para o efeito candidatou e organizou dois cursos de formação profissional em freguesias rurais do concelho (com o apoio do Fundo Social Europeu). Em 1999 encetou um Curso de Brinquedos Populares em Lavre ao abrigo do Programa Escolas-Oficinas do IEFP. Está em funcionamento desde Julho 2001 um Curso de Brinquedos Populares no Ciborro, financiado pelo Programa Operacional Emprego, Formação e Desenvolvimento Social.
Os cursos contaram com vertentes de formação teórica e prática orientada para a produção de brinquedos em trapo, madeira, cortiça, cana e arame. Durante um ano cerca de dez mulheres e jovens aprendem a construir bonecas de trapo, gaiolas para grilos, carroças, bonecos articulados, reproduzindo os modelos da colecção etnográfica.
Formadas as pessoas, pretendeu-se constituir uma oficina de produção de brinquedos populares de Montemor-o-Novo com os objectivos de recuperar o potencial lúdico do brinquedo popular; dar-lhe novos usos enquanto testemunhos materiais de um mundo rural em mudança; renovar as actividades artesanais na região; e criar emprego nas áreas rurais.
Na produção e comercialização destes objectos de memória, testemunhos de vivências rurais no Alentejo, orientou-nos a procura de autenticidade, pelos materiais e técnicas utilizados e pela pesquisa etnográfica que os sustenta, possível pelo percurso de investigação - acção que está na base deste projecto de desenvolvimento. Orientou-nos ainda uma vontade de estimular na população local em geral, e nas formandas em particular, o gosto por estes objectos, frequentemente desvalorizados, porque associados na memória recente a um passado de pobreza e vida difícil. Só gostando e amando aquilo que é nosso, que nos identifica a nós e à região, podemos acreditar na possibilidade de criar algo de novo, participando no desenvolvimento local.
Os brinquedos produzidos pela Associação procuram ser, ao nível das matérias-primas e representação, reproduções dos modelos do brinquedo popular: bola de trapos, boneca de trapo, gaiola de grilo, espingarda de cana, animais em cortiça ou bolotas, bicicleta, carroça, carrinha, tractor, boneco articulado, jogos como o das pedrinhas e do galo. Mas o brinquedo popular nunca foi um objecto estático, mas antes um indicador de mudança pela progressiva incorporação de novos materiais e reprodução de novas formas. Neste sentido, não faz sentido reproduzir um modelo cristalizado de brinquedo popular. A MARCA-ADL tem assim procurado inovar em resposta a novas necessidades na área do lúdico, didáctico e artesanal no sentido de assegurar a sustentabilidade do projecto. A inovação procuramo-la menos nas matérias primas e mais na forma e no uso.